quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Comencrítica | Flores Raras









Por Samara Correia

A vida é repleta de recomeços e principalmente de perdas. Em Flores Raras, filme do diretor brasileiro Bruno Barreto, a alegria e a força da descoberta andam ao lado da melancolia e do sofrimento do fim. A trama, ambientada no Brasil das décadas de 50 e 60, tem como foco o romance entre a paisagista brasileira Lota de Macedo Soares, Glória Pires, e a poetisa Elizabeth Bishop, Miranda Otto. Ambas mulheres fortes que tiveram grande representatividade em suas áreas de atuação: Lota idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo e Bishop foi ganhadora do renomado prêmio Pulitzer, em 1956.

A obra, baseada no livro Flores Raras e Banalíssimas, de Carmem L. de Oliveira, mostra o nascimento do amor, seu auge e deterioração. Apesar de, inicialmente, atrair a curiosidade, o relacionamento entre duas mulheres não é o foco da trama, que poderia ser vivida por qualquer outro casal. O filme não levanta bandeiras; não aborda preconceito, apesar de em alguns momentos sermos lembrados de que ele existe; não existem dilemas pelo fato de duas mulheres criarem uma criança; não há dificuldades que não sejam cabíveis a todos os relacionamentos amorosos.

Bishop vem ao Brasil para passar alguns dias, mas, por questões de saúde, acaba ficando por mais tempo. Nesse período, Lota, que inicialmente tinha aversão pela estrangeira, começa a apaixonar-se. Assim vemos o surgimento do triângulo amoroso, já que a paisagista vivia com Mary, Tracy Middendorf, e a deixa para viver com Bishop. Temos aqui a primeira situação de perda, que será constante no filme: começos, fins, recomeços e desilusões figuras tão constantes no amor.

Apesar de brasileiro, o filme é quase todo em inglês, nas poucas vezes em que o português é utilizado, chega a soar estranho, principalmente, quando é falado por uma das atrizes estrangeiras, Otto ou  Middendorf. Glória Pires, que disse em entrevistas que não fala inglês fluentemente, teve que passar por aulas de inglês e trabalhos de fono para aperfeiçoar a pronúncia, o resultado final é satisfatória, e talvez, quem sabe, esse detalhe idiomático ajude o filme a ganhar espaço no mercado internacional.



Flores Raras tenta ser um filme delicado como a poesia de Bishop ou as obras de Lota, mas, apesar da pretensão, não consegue atingir totalmente o objetivo. Se por um lado Barreto cria cenas sutis e belas, como quando Cookie (apelido de Bishop) lava os cabelos negros de Lota e começa a ter os primeiros devaneios do livro Norte & Sul, que ganharia o Pulitzer; em outros perde-se em imagens altamente didáticas, como quando, por exemplo, Bishop recita um poema sobre perda e vemos o barquinho de uma criança afundado, quando as luzes do parque do Flamengo apagam subitamente ou quando uma chuva forte começa cair assim que iniciada uma briga.

Apesar dos deslizes no roteiro e direção, a fotografia, a cenografia e o figurino merecem destaque. Favorecido por uma linda locação (a casa da Lota no campo, Samambaia), o filme é recheado de belas paisagens, e de construções visuais muito interessantes. As casas e apartamentos são muito bem mobiliados e há fidelidade a época que o filme se passa. Tendo como principais cores azul, roxo e vermelho, quase sempre em tons envelhecidos, o figurino traça muito bem a personalidade das personagens. Lota, quase sempre de calça, blazer e colete, é forte e marcante; Bishop aparece com tecidos leves e roupas claras que destacam a alvura de sua pele, conforme vai ambientando-se ao Rio de Janeiro ganha figurinos mais coloridos.

Um filme bonito, mas não excepcional, tem a sorte de contar com uma história muito forte, mas peca por não conseguir uma unidade. Ao tentar, por exemplo, tratar das questões políticas do Brasil (ditadura) não tem grande sucesso. Porém, as protagonistas trazem grande riqueza para a obra, o trabalho de Glória e Miranda merece ser destacado e apreciado.

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