quinta-feira, 5 de abril de 2012

Comencrítica - Shame

Por Davi de Castro

Gabriel García Márquez afirma que “o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”. Em Shame, vemos a sentença se aplicar com rigor em Brandon Sullivan, personagem vivido por Michael Fassbender, um cara recluso, impessoal e triste, que não consegue estabelecer ligações emocionais mais profundas, e, não obstante, mantém um compulsivo vício sexual. Sem cair na caricatura, Fassbender constrói um personagem complexo e humanizado, conseguindo despertar até a empatia do público, apesar de suas polêmicas atitudes – auxiliado, é claro, pelo bem estruturado roteiro do diretor Steve McQueen com Abi Morgan.

McQueen conduz a narrativa empregando elementos que enriquecem o roteiro e despertam sentimentos no espectador. Os planos (médios e longos, em sua maioria) conferem um ritmo melancólico similar à vida do retratado. Também demonstram o cuidado em acompanhar os acontecimentos da narrativa, aumentando-lhe o simbolismo, como na cena em que, absolutamente irritado por ouvir os gemidos da irmã com o seu chefe no quarto, Brandon aparece espremido entre seus móveis no canto inferior esquerdo da tela, lembrando o espectador de cenas anteriores, quando o protagonista disse para a irmã que ela o deixava encurralado.

As cores da película também são um dos pontos fortes, constituindo uma estética interessante, numa perfeita sintonia entre direção de arte, figurino e fotografia. São utilizadas cores frias, como azul, cinza e verde, para caracterizar a personalidade fechada, distante, e até sombria do protagonista. Nas cenas de sexo, no entanto, nota-se a presença de cores vivas, vibrantes, como vermelho, o rosa, o roxo e o amarelo. É como se a mudança de tonalidade nos indicasse que aqueles momentos de prazer são o ponto de escape daquela vida solitária, resignada, linear, rotineira, do nosso personagem. Eis aí, talvez, a razão de sua compulsão sexual. É como uma fuga, um contraponto, às suas atividades, à sua imagem de bom moço, à sua ânsia de querer manter sempre tudo sob controle, tudo alinhado. 

A sexualidade excessivamente aflorada não é o único dilema de Brandon. O fato é apenas um artifício pelo qual seu drama parte e se desenvolve. A estória, portanto, vai além das meras cenas fortes, que incluem até nu frontal. A conturbada aparição de Sissy (Carey Mulligan), irmã de Brandon, corrobora o argumento. A instabilidade emocional da moça e sua delicada relação com o irmão já denotam o histórico familiar um tanto complicado, cuja ausência dos pais parece ter sido uma constante na vida de ambos.

Ao contrário de Brandon, Sissy é, embora nem sempre demonstre, frágil, delicada, e apresenta um forte afeto pelo irmão. No entanto, o protagonista se mostra incapaz de retribuir, na mesma medida, o carinho por ela. Aliás, seu mundo parece ser tão distorcido, que é inevitável não perceber uma certa conotação sexual em alguns de seus atos com a irmã. É como se o sexo fosse a forma mais próxima que Brandon conhece de demonstrar algum afeto. Tanto que as mesmas cores fortes e vibrantes percebidas em algumas cenas de sexo estão também presentes na maioria das vezes em que Sissy aparece. 

E se a vergonha do personagem passa despercebida dos demais por muito tempo, quem sabe até dele mesmo, é durante o encontro com uma colega de trabalho em um restaurante que Brandon começa a perceber e a refletir, ou pelo menos a considerar, sua aversão por relacionamentos amorosos e a obsessão por sexo. E quando a gente pensa que uma virada está por vir, o iminente fracasso acaba levando-o ao extremo de seu vício. É aí que a película ganha cores fortes, apontando a um claro “aumento da temperatura” do filme. Um importante evento com Sissy, no entanto, vai culminar com uma cena emblemática e que nos levará, ou pelo menos vai sugerir, novos caminhos com o “extravasar” do personagem, onde, pela primeira vez, ele explode em emoção e a externaliza. Assim como seu gesto simples, mas muito significativo, em relação à irmã. 

Sem apresentar um desfecho conclusivo ou mesmo apelar para o clichê, o filme termina com uma cena icônica, semelhante à cena inicial, só que com ações minimamente diferentes dos personagens envolvidos, que apenas trocam olhares e gestos, assim como o ambiente sutilmente mais limpo. São apenas indícios, deixando a leitura à mercê do espectador. Será, então, que os últimos acontecimentos provocaram alguma mudança? Algum sentimento amoroso se aproximou dele, diminuindo a intensidade de seu "consolo"? Talvez seja este o único caminho que o distancie de sua vergonha.

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