quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: saudosismo e melancolia

Por Davi de Castro

A Invenção de Hugo Cabret e O Artista lideram as indicações

Definitivamente, a 84ª edição do Oscar é a premiação da nostalgia, da melancolia, do saudosismo. Os dois filmes mais disputados (O ARTISTA e A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, respectivamente com 10 e 11 indicações) são nada mais que uma maravilhosa homenagem ao cinema pioneiro, clássico, mudo e em preto e branco. Enquanto o primeiro (O Artista) adentra no universo memorado fazendo uso da linguagem e técnicas da época (por exemplo, a fotografia no formato standard (1.33:1) e com os frames acelerados), o segundo o venera a partir da linguagem cinematográfica contemporânea, de ponta, fazendo uso de uma das melhores adequações do 3D já vista nas telonas (com muita profundidade e sobreposição de planos, sem precisar jogar nada na cara do espectador). A Thandy Yung já escreveu sobre a Invenção de Hugo Cabret. Leia!

Impossível a qualquer cinéfilo mais dedicado não se emocionar com as estórias e a nostalgia iminente, naquele conhecido saudosismo do que não se viveu. Afinal, quem nunca quis ter o privilégio de assistir a uma película em p&b e muda no cinema? Ou quem nunca imaginou como seriam os sets de gravação das obras de Méliès? Pois são presentes assim que O Artista e Hugo Cabret nos proporcionam. Merecem, de fato, todo o reconhecimento que estão recebendo. E não são apenas os dois grandes favoritos da noite do dia 26 de fevereiro de 2012 que exalam certo grau de nostalgia e melancolia:


CAVALO DE GUERRA - Spielberg, com Cavalo de Guerra, evoca o clima dos grandes épicos de outrora, numa clara tentativa de remontar ao passado. Sem, no entanto, obter os mesmos êxitos daqueles dois. Tecnicamente perfeito (não era pra menos), o filme peca por pesar a mão no melodrama e apresentar uma estória superficial e pouco cativante, de uma amizade sem limites entre um jovem e um cavalo, em que são separados pelo destino e têm de enfrentar os percalços da guerra até o esperado reencontro. As referências a clássicos como E o vento levou... aparentam, aqui, sem propósitos, incorrendo em feitos meramente estéticos.


MEIA NOITE EM PARIS - E como falar de nostalgia/saudosismo sem lembrar de um dos seus grandes expoentes? Meia Noite em Paris, de Woody Allen, dá cor e forma aos desejos e sonhos mais tenros permeados no imaginário dos descontentes com seu tempo, como conhecer autores passados que tanto nos cativam, bem como épocas distantes que nos enchem os olhos de lágrimas só de pensar. A Belle Époque parisiense e o diálogo memorável entre grandes artistas clássicos não só nos remetem ao saudosismo, como à nostalgia do que não vivemos. Leia também a crítica que a Ericka Guimarães escreveu sobre o filme.


A ÁRVORE DA VIDA - Sem metalinguagens, mas não por isso menos melancólico e nostálgico, a narrativa faz uma crônica sobre a vida, nos incitando a refletir sobre a natureza humana e nossa condição. Obra-prima do cineasta Terrence Malick e um filme “estranho no ninho” para uma premiação como o Oscar, A Árvore da Vida é de uma candura e sensibilidade únicas. A fotografia é um espetáculo à parte e nos convida a imergir naquele mundo de flashbacks do universo e da vida do protagonista. A gente sai desnorteado do cinema.


OS DESCENDENTES - Os Descendentes é outra grande aposta melancólica da disputa, já até o denominaram (não me lembro onde) como o filme mais indie da premiação. Apresentando um Havaí um tanto diferente do que estamos habituados (pouco sol, pouco mar, pouca festa), o filme se centra no drama familiar do patriarca vivido por George Clooney, que tem de lidar com o coma da esposa, a criação das duas filhas adolescentes e a recém-descoberta da traição de sua mulher. O ritmo excessivamente calmo torna a estória enfadonha e longa.

TÃO FORTE E TÃO PERTO – Dirigido por Stephen Daldry, o filme conta o drama do pequeno Oskar Schell (Thomas Horn), uma criança de 11 anos perspicaz, talentosa, geniosa e cheia de manias e tics que perde o pai e melhor amigo (vivido por Tom Hanks) no traumático 11 de setembro. Remontando figurinos, cenários e acessórios desta época tão perto e tão longe (2001), não tem como não sentir-se nostálgico ao ver, por exemplo, cenas na tv do trágico incidente (e tentar lembrar o que fazíamos na data) ou ver os celulares típicos daquele começo de década, como aquele modelo Nokia grande, apelidado de tijorola. A estória é tocante e consegue sensibilizar, diferente do premiado (não consigo entender) Os Descendentes. Os personagens trazem uma humanização e por mais que aparentemente alguns mostrem-se unidimensionais, a trama evolui e nos surpreende, como o desenvolvimento do próprio Oskar, que mescla momentos de genialidade e uma mente madura com cenas de antipatia e chiliques típicos de crianças de 7 anos. 

O HOMEM QUE MUDOU O JOGO – Brad Pitt vive um ex-atleta de baseball frustrado que, apesar de promissor na adolescência, ficou apenas na promessa. Esteja aí, talvez, o principal motivo da melancolia que acompanha o agora gerente do time Oakland Athletics, responsável por encontrar e desenvolver talentos, durante toda a película. É ao lado do personagem de Jonah Hill que Pitt passa a desafiar todo o sistema e a utilizar um novo método de captação de atletas. Os fatores “realidade” e “humano”, no entanto, retardam os planos do método que, com persistência, mudaria todo o jogo em breve. Apesar de ser um filme essencialmente sobre baseball, quem não saca nada do esporte (como eu) consegue entender sem delongas e o drama do personagem e seu desafio sobressaem-se às regras e normas tanto debatidas.  

HISTÓRIAS CRUZADAS – Mais um filme que retrata determinado período na História. Eis aqui o único não saudosista, não melancólico e não nostálgico. Também pudera, já que trata da ferida do preconceito racial e a luta dos negros pelos direitos civis. Com uma premissa que poderia render um grande filme, tratando com sensibilidade e fugindo da superficialidade, o filme incorre em questões que o tornam, no mínimo, mediano, apesar do esforço de alguns atores, como a brilhante Viola Davis. O roteiro é moralmente questionável, maniqueísta e apela para o sentimentalismo a fim de esconder sua artificialidade. Em vez de enfocar a condição de vida das empregadas domésticas negras nos Estados Unidos da década de 1960, o que era esperado e cujas personagens são as mais interessantes, a narrativa se preocupa em retratar os dilemas fúteis das patroas ricas e brancas e busca soluções simples e óbvias.




-> Este ano tem tanta preciosidade no Oscar (A Árvore da Vida, O Artista, Hugo Cabret, Meia Noite em Paris e Tão Forte e Tão Longe) que ainda não tenho um favorito absoluto (mas acho que, no fundo, Hugo esteja no topo). De qualquer forma, acredito que minhas chances de sair frustrado serão menores (se bem que meu histórico não é muito bom).

Leia também: Os livros que inspiraram os indicados ao Oscar
@davidecastro

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