sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Crítica | A invenção de Hugo Cabret

Por Thandy Yung

Acostumado a filmes voltados para o público adulto, Martin Scorsese se aventura pela primeira vez – em mais de 40 anos de carreira – na direção de um infanto-juvenil e acerta perfeitamente a mão. Em uma bela homenagem à sétima arte, A Invenção de Hugo Cabret é um filme completo. Tanto na técnica quanto em questões artísticas, o longa faz jus a cada uma das 11 cantegorias no qual foi indicado ao Oscar 2012.

O filme conta a história de Hugo Cabret (Asa Butterfield), um órfão que vive sozinho numa estação de trem em plena Paris do início do século XX. Com a ajuda de Isabelle (Chloë Moretz), ele busca a resposta para um mistério que liga o pai que ele perdeu recentemente (Jude Law), o mal humorado Papa Georges (bem Kingsley), um autômato programado para escrever e uma fechadura em forma de coração, aparentemente sem chave. Ao entrar de cabeça nessa aventura, eles descobrem a verdadeira identidade de Georges e, enfim, desvendam o mistério deixado pelo pai.


Equilíbrio é a palavra de ordem. As sequências são dividas na medida certa entre drama, humor e ação. Cada um dos momentos é perfeitamente amarrado ao próximo e o que surge é a vontade cada vez maior por mais uma parcela do mistério, oferecido em doses homeopáticas até que se chegue ao clímax.

Scorsese não mede esforços em enaltecer sua paixão pelo cinema e sua admiração pela leitura, e impressiona pelo cuidado gasto em tais quesitos, é perceptível que tudo foi amplamente pensado. O filme é recheado de referências a grandes nomes das duas artes. No campo do cinema, um tempero a mais: projeções dos primeiros clássicos como A Chegada do Trem na Estação, dos irmãos Lumière, e Viagem à Lua, de Méliès.


Além de ser a primeira vez de Scorsese no universo infantil, esta é também a primeira vez que o diretor investe em um filme 3D. E, novamente, acerta. O efeito da terceira dimensão é usado de maneira sutil e impecável. Ao deixar de lado o feio costume de usar a tecnologia para jogar objetos na cara do espectador, Hugo chega como se estivesse realmente em nossa frente, uma noção perfeita da profundidade de campo.

Embora não tenha recebido nenhuma indicação ao Oscar na área da interpretação, o trabalho do elenco merece destaque. A química entre os protagonistas infantis é impecável e eles parecem amigos de longa data vivendo uma aventura. Mais atenção ainda merece a atuação de Butterfield que, de tão sincera, coloca muitos veteranos no chinelo. Fechando com chave de ouro, Kingsley dá o toque de maturidade que faltava e transforma o pesar em algo ainda mais real. Aos mais emotivos, é melhor deixar lenços à postos. Vai ser difícil não se emocionar com a história.

Após anos sendo alimentados com produções vazias e apenas bonitinhas, Hugo Cabret é um filme infantil que tem a chance de ampliar os conhecimentos dos pequenos – e dos pais – no universo do cinema e da literatura. Algo mais do que rir durante uma hora e meia e pronto, coisa que há anos a indústria cinematográfica estava devendo ao público. Um verdadeiro presente para quem gosta de cinema: seja como puro entretenimento, seja como arte.

Leia também: Os livros que inspiraram os indicados ao Oscar

Thandy Yung e Central de Cinema no Twitter:
@thadyung e @centraldecinema

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