quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Arrebatadora metalinguagem

Por Davi de Castro

É marcante o poder simbólico que a sétima arte exerce sobre nós, sobretudo nos mais aficionados, que não medem esforços na entrega a esse mágico e envolvente universo. É como se o cinema fizesse, de fato, parte de nossa vida – e o faz, que o digam os cinéfilos! Apesar desse relacionamento por si só já benéfico, por vezes ainda temos o prazer de desfrutar algumas obras que, não sei vocês, mas para mim são um verdadeiro presente. É quando o cinema fala de si mesmo, numa inteligente capacidade de auto-referência e estratégia de auto-reflexão, o que chamamos de metalinguagem. Um deleite à expressão do imaginário compartilhado entre os criadores e seu público.

Seja ao abordar o universo cinematográfico e seus realizadores, como um filme sobre atores ou diretores, seja ao tratar do discurso cinematográfico, apresentando um filme dentro do filme, decodificando a linguagem cinematográfica, inserindo o espectador dentro da obra, a metalinguagem, se bem desenvolvida, chega a ser fascinante. É um convite à imersão ao filme, uma ilusão de participação construída com a imediata identificação com a temática.



São várias as obras, muitas até clássicas, que fazem uso desse elemento criativo. Vamos falar hoje sobre A Rosa Púrpura do Cairo (1985), do grande Woody Allen. No filme, o cinema é um ponto de fuga, de libertação, de realização, ainda que temporária, da protagonista Cecília (Mia Farrow). A vida dela é uma droga, vê-se obrigada a trabalhar de garçonete, função que não tem a menor habilidade, para sustentar o marido boêmio, agressivo e desempregado. Uma relação sem afeto, cujo fracasso é iminente. Para fugir da triste realidade, Cecília recorre àquilo que provavelmente seja sua mais intensa fonte de prazer, naquele momento: o cinema (Acho que ela não está sozinha nessa, ein?!). Cecília é tão cinéfila que todos os funcionários da sala de exibição a conhecem. E a coitada não receia em gastar suas poucas moedas vendo filmes, mesmo que já os tenha assistido várias vezes (que coincidência!).

Seu olhar está sempre atento e inebriado nas salas de projeção, as expressões variam conforme o roteiro vai se desenvolvendo (o roteiro do filme que passa no filme, viu? Eita, metalinguagem!). Emoções despertas na protagonista, naquele momento mágico, nos atigem também (quem nunca se perguntou se também fica com cara de bobo ao assistir um bom filme no cinema?). O roteiro se complexifica (agora é o do filme mesmo, o “real”) e a metalinguagem beira o surrealismo numa metáfora inteligente muito bem articulada por Allen. Cecília literalmente entra no filme, e nós, espectadores, embarcamos nessa louca viagem, exasperados com aquela almejada utopia. A obra cinematográfica literalmente ganha vida para Cecília. E a vida real ganha concretude a um personagem do filme que Cecília via.

A magia do cinema a envolve por completo e muda sua vida. O real e a ficção estabelecem diálogos, interagem, mas tomam consciência de que não há coexistência, pelo menos não com suas divergências de mundo. Alguém tem que ceder, se perder. No fim, caem na real (abstraia!).

Enfim, o filme é uma perspicaz metalinguagem que trabalha com níveis aparentemente superficiais do discurso cinematográfico, mas que na verdade é uma rica metáfora, eficaz em construir elos de identificação com muitos cinéfilos como Cecília. Woody Allen gosta da metalinguagem e sabe manuseá-la, tem consciência dos efeitos dela em seu público cativo. A mais recente do diretor foi de arrebatar. Em uma cena de seu novo filme, Meia Noite em Paris, ele coloca o protagonista Gil (Owen Wilson), uma espécie de viajante do tempo, em uma sutil e breve metalinguagem, mas que, confesso, mexeu comigo. Gil tem o privilégio de encontrar grandes nomes do surrealismo, o cineasta Luis Buñuel, o pintor Salvador Dalí, e o fotógrafo Man Ray (um sonho, minha gente, um sonho!). Na conversa, Gil fala sobre as obras de Buñuel e aproveita para dar umas “dicas/sugestões” para o cineasta. É uma delícia. Ah, a metalinguagem tem disso. Sabe nos seduzir.


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A Rosa Púrpura do Cairo em DVD








Coleção Woody Allen, com 20 DVDs

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