quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Crítica de 'O Vencedor'


Por Davi de Castro, a convite do Central de Cinema

A princípio, O Vencedor (The Fighter) parece ser apenas mais um filme de superação com temática esportiva. O arco dramático do conflito familiar do boxeador Micky Ward (Mark Wahlberg) e as poucas cenas de luta, no entanto, refutam o pensamento inicial sobre a película – que foi indicada a sete estatuetas no Oscar 2011 (melhor filme, direção, montagem, roteiro original e coadjuvantes). Primeiro, porque não há uma factual superação, em termos hollywoodianos – o “vencedor” está mais para um coitado que de tanto tentar acabou conseguindo vencer um campeonato de importância secundária. Depois, porque o esporte é relegado a segundo – quiçá terceiro plano. As relações familiares, suas complexidades e como elas podem nos direcionar são o ponto central da trama.


Baseado em uma história real, o filme se passa nos anos 1990 e conta a trajetória de Micky, um boxeador pouco talentoso que treina em uma academia do bairro pobre onde mora, em Boston, sob as instruções de seu irmão mais velho, Dicky Eklund (Christian Bale), um ex-boxeador cujo maior feito foi ter derrubado Sugar Ray Leonard em 1978 – luta que acabou perdendo, vale ressaltar. Empresariado pela mãe, Alice (Melissa Leo), ávida por disputas que remunerem bem, e treinado pelo irmão, uma figura meio boba, já desnorteado pelo uso de crack e sem compromisso com a preparação física, Micky não consegue treinar direito e não obtém êxito nas lutas até conhecer Charlene (Amy Adams), namorada que traz sensatez e induz atitudes ao passivo e conformado boxeador. É aí que o conflito atinge o ápice e o roteiro ganha impulso em uma narrativa bem conduzida, mas que cansa ao longo dos 115 minutos do filme, talvez por ser demasiadamente linear. O diretor David O. Russel (Huckabees - A Vida É uma Comédia, 2004) usa recursos técnicos e um estilo que faz O Vencedor parecer um documentário.

Talvez pela excentricidade, a história que mais atrai atenção é a de Dicky, interpretado magistralmente por Bale. É ele que nossos olhos procuram na tela e querem ter sempre ali, ansiosos por sua imprevisibilidade. A performance caricata ganha contornos já no próprio visual do ator, notoriamente abaixo do peso, de olhos abatidos e profundos e com uma iminente calvície – demonstrando, mais uma vez, seu nível de entrega a uma obra, como em O Operário, em que teve de emagrecer cerca de 28 quilos. O personagem de Bale rouba a cena, transformando-se no verdadeiro protagonista, tarefa auxiliada pelo fraco e apático desempenho de Mark Wahlberg, que é, inclusive, o produtor do filme. Neste ano, a Academia tem uma difícil tarefa quanto à escolha do melhor ator coadjuvante. Bale e Geoffrey Rush, de O Discurso do Rei, encabeçam a disputa. Pode ser a chance de a Academia se redimir por ignorar Bale em trabalhos incríveis como o já citado O Operário e O Psicopata Americano e premiá-lo pela primeira vez.

Outra que merece destaque é Melissa Leo por sua excelente atuação na pela da controladora e neurótica mãe, que proporciona boas risadas ao lado da extravagante trupe composta por suas inseparáveis sete filhas, muito bem inseridas e interpretadas. Leo é uma das favoritas a atriz coadjuvante no Oscar 2011, ao lado da colega de elenco Amy Adams, sua rival no filme.

Assim como a canção ‘Good Times, Bad Times’, do Led Zeppelin, que embala algumas cenas, o longa tem seus altos e baixos –  literalmente bons e maus momentos, em vários aspectos. Apesar da direção mediana de O. Russel, sem muita inovação ou ousadia, a cena inicial é um de seus bons momentos, quando após a rápida apresentação dos irmãos Micky e Dicky, que gravavam um documentário da HBO sobre Dicky, a câmera recua rapidamente dando lugar aos créditos do título do filme, como se o diretor convidasse os espectadores a imergirem num novo olhar sobre a peculiar vida dos dois. Nesse aspecto, ele cumpre o prometido e apresenta vários pontos de vista, perspectivas que possibilitam análise dos estereótipos ali representados, o que enriquece a trama.

O Vencedor é um bom filme, mas perto dos concorrentes ao título de melhor longa no Oscar desse ano, sua vitória torna-se pouco provável ou, no mínimo, perdida assim como o pacífico Micky – inerte em meio à acirrada briga, seja no seio familiar ou no ringue. O longa não empolga como similares do gênero, a exemplo de A Menina de Ouro (2004).

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