sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Crítica de 'Bravura Indômita'



Por Davi de Castro, a convite do Central de Cinema

No típico clássico western, dominado por balas, chapéus, botas, esporas, roupas de couro, fivelas, cavalos e muitos cowboys em um ambiente semiárido, o que se destaca em Bravura Indômita (True Grit, 2010) é uma impiedosa e obstinada garota de apenas 14 anos, Mattie Ross (Hailee Steinfeld). Ela busca alguém com uma notável “bravura indômita” para vingar a morte de seu pai, assassinado pelo foragido Tom Chaney (Josh Brolin), em 1878.

O escolhido é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um “federal” exímio na arte de exterminar seus oponentes. O sujeito cobra de Mattie 100 dólares para aceitar a missão, recebendo um adiantamento de metade desse valor da exigente contratante, que faz questão de acompanhar de perto a execução do trabalho. Os dois seguem acompanhados do ranger texano LaBoeuf (Matt Damon), que visa uma recompensa com a cabeça de Chaney.

Menosprezada pela pouca idade no início, Mattie conquista o respeito dos dois durões com toda sua maturidade e perspicácia – ela certamente possui a melhor lábia do oeste norte-americano –, tornando-se alvo de disputa da atenção de ambos. Os conflitos não tardam a vir, com direito a deserção de LaBoeuf no meio da jornada por duas vezes.

A personalidade do trio protagonista é intrigante, renderia boas análises psicológicas a partir do roteiro deste faroeste cujo eixo não se estabelece em tensões psicológicas. Interessante notar como são apresentados sem idealismos, sem fantasias ou adornos. São falhos e não escondem isso, heróis e anti-heróis, sem julgamentos morais. Os diálogos são inteligentes e bem estruturados – assim como o roteiro, no geral –, apesar de intensos e rápidos. É preciso atenção para não se perder na leitura das legendas.

A direção de Joel e Ethan Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez, 2008), os irmãos que têm reinventado o gênero western, é de tirar o fôlego, engrandecida pela magnífica fotografia de Roger Deakins. Destaque para as emblemáticas apresentações de Cogburn – em um contraluz que não revela totalmente sua face durante um julgamento, dando um ar de mistério à figura – e LaBoeuf – em um travelling que mostra o texano sentado em uma varanda fumando um charuto cuja fumaça sobrepõe seu rosto. O peculiar humor – por vezes, negro – dos Coen não fica de fora, como na cena em que um curandeiro vestido de urso aparece oferecendo seus serviços a Cogburn e Mattie.

A sintonia entre direção, fotografia, direção de arte, figurino e as grandes atuações torna Bravura Indômita uma bela obra, indicada a dez categorias no Oscar 2011. A estreante Hailee Steinfeld impressiona com a petulante Mattie, fazendo jus à sua precoce indicação à estatueta de coadjuvante. Bridges e Damon estão irretocáveis, sobretudo no esforço – eficaz – em carregar o sotaque (dizem que Damon amarrou liguinhas na língua para conseguir o efeito da fala enrolada do seu personagem).

O velho alcoólatra e caolho Cogburn, ao mesmo tempo que demonstra um coração duro e insensível, se compraz da triste e infeliz alma de Mattie, representando uma figura paterna e salvadora. A almejada vingança da menina se concretiza por suas próprias mãos, mas lhe imprime marcas eternas – e emocionantes na narração final do longa. Sua aparência infantil, de cabelos trançados, é apenas um contraponto de sua corajosa e destemida personalidade, cuja bravura é indomável, por essência.

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