quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Crítica de '127 Horas'



Por Davi de Castro, a convite do Central de Cinema

A proposta de 127 Horas (127 hours, 2010) atiça a curiosidade já na sinopse. A ideia de transpor a história do alpinista Aron Ralston para os cinemas é ousada – e perigosa. Podia ser um sucesso ou uma verdadeira lástima. O diretor Danny Boyle (Quem quer ser um milionário?, 2008), no entanto, fica com a primeira opção e se reinventa, mostrando toda sua capacidade criativa com esse drama difícil de contar, cinematograficamente falando (afinal, é a história de um homem só em um único ambiente na maior parte do tempo). Mas Boyle surpreende e nos dá de presente essa interessante obra, que nos inquieta e acelera os batimentos cardíacos.


A história não é novidade, foi bem noticiada na época e virou até livro, cuja adaptação virou o filme aqui comentado. Trata-se do trágico episódio que mudou a vida de Aron Ralston (James Franco), que, em 2003, saiu de casa – sem avisar ninguém para onde iria – e foi se aventurar pelos canyons de Utah, nos Estados Unidos. Ele teve a infelicidade de cair em uma fenda e ficou com o antebraço preso entre uma pedra e a parede rochosa durante 127 horas, cerca de cinco dias, até decidir amputar o braço.  Durante esse período, Ralston luta pela sua sobrevivência, tendo de racionar a pouca quantidade água e comida que possuía na mochila.

Em contraste às sequências iniciais, em que o diretor apresenta o protagonista em total efusividade com a jornada que se inicia e ao lado de duas garotas que acaba de conhecer, com muitas cores e música, o filme ganha contornos dramáticos a partir da queda de Ralston.  O silêncio denota que algo deu errado – e muito.  As cenas da queda conseguem levar o espectador ao ambiente claustrofóbico o qual Ralston se encontra.

Com uma máquina fotográfica e uma filmadora, ele registra e eterniza sua situação, gravando depoimentos ao decorrer do tempo. Tempo. É sobre essa preciosidade que gira o enredo. Não apenas o tempo cronológico que põe em jogo a vida de Ralston naquela ‘prisão’, mas o tempo de vida que ele teve até então. O diretor mescla os momentos de tensão na fenda com lembranças de Ralston – seus defeitos e virtudes –, apresentando assim a personalidade e estilo de vida do alpinista.

O abatimento físico de Ralston não tira seu senso de humor, ele consegue fazer piada da própria situação, que de tão improvável certamente deveria tornar-se filme – e vira! Com o avanço das horas, o abalo psicológico não tarda a acometê-lo. Memória, delírios e sonhos/pesadelos passam a confundir e atordoar o alpinista, aumentando a aflição e arrependimento do personagem. Da mesma forma, a angústia por saber o final daquela história e o desejo de ver logo a sequência da esperada amputação, feita com um canivete cego que Ralston portava na mochila. A cena é atormentadora, difícil alguém conseguir assisti-la sem desviar o olhar, mesmo que acidentalmente.

Um dos pontos fortes do filme é a brilhante edição, que comunica com eficiência a proposta do longa, provocando sensações. A estética de dispor múltiplas telas, como no início do filme, e o excesso de tons pastéis é questionável. Um recurso metalingüístico desnecessário na obra, que se destaca em outra parte pela atuação impecável de James Franco. Conhecido por interpretar Harry, o melhor amigo de Peter Parker, em O Homem-Aranha, Franco consegue se desprender da mediana atuação e se mostra um ator maturo e pronto para desafios como o que acabara de enfrentar.

As chances de ele levar o oscar de melhor ator são poucas frente ao favoritismo – e real merecimento – de Colin Firth (O Discurso do Rei), mas a indicação já é suficiente para apontar o caminho que deve trilhar e que poderá lhe render ainda bons prêmios.

O conjunto da obra é muito bom e merecia até mais indicações que as seis a que concorre no Oscar 2011 (filme, ator, montagem, trilha sonora original, canção original e roteiro adaptado). 127 Horas é um daqueles filmes que faz você sair do cinema mudo, pensativo e feliz por estar bem e vivo. O recado que passa é claro e reflexivo, ainda que clichê: ao viajar, deixe as pessoas avisadas. Pode salvar vidas – ou pelo menos um membro do corpo, no caso.

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